Outros

Engajamento para mudar o mundo

Aluno de Yale mostra como a união entre o conhecimento acadêmico e a disposição de contribuir para a sociedade têm um impacto positivo

Por Sérgio Siscaro

A vontade de ter um impacto no mundo e de lutar pelo que acredita, assim como a disposição de se engajar em atividades que contribuam para mudar as condições atuais da sociedade ou de disseminar o conhecimento, são características  que  indicam a aptidão para a liderança e para o empreende-dorismo social. E fazem parte do dia a dia do estudante Davi Lemos, que as levou para Yale, onde participou de diversas atividades extra-acadêmicas e conseguiu engajar positivamente tanto a comunidade de alunos quanto a sociedade em geral.

A tendência de fazer acontecer começou cedo: em 2012, quando tinha 16 anos e estudava no ensino médio no Colégio Bandeirantes, em São Paulo, Lemos foi um dos idealizadores do primeiro TEDxColégio Bandeirantes – um evento baseado em um modelo do Vale do Silício, na Califórnia, com a finalidade de discutir e incentivar a participação da comunidade, dando atenção a valores como cidadania e inovação.  “Consegui juntar um professor e alguns alunos interessados, e a gente fez acontecer. Também era ativo no Grêmio Estudantil, dava aulas voluntárias de inglês e era capitão do time de basquete – eu tinha contato com diferentes grupos no colégio, e conseguia ver o que poderia ser feito para melhorar as atividades dos alunos, seu relacionamento com a escola etc.”, afirma.

Ele acrescenta que já tinha como meta, na época, estudar fora do país – e entendia que essas atividades extras contribuiriam para que pudesse construir um perfil mais alinhado às demandas das instituições internacionais de ensino.

No ano seguinte, se formou. Mas, antes de se inscrever para uma faculdade no exterior, resolveu fortalecer o perfil “fora da caixa” e tirou um ano sabático, no qual mochilou sozinho pela América Latina. Era 2014. Além da experiência enriquecedora e da autonomia que vivenciou nesse período, Lemos aproveitou para se engajar no programa da Fundação Estudar destinado a auxiliar alunos a preencherem os requisitos necessários para inscrição em universidades de ponta dos EUA.  “Eu fiz a mentoria por alguns anos para eles, mas parei no primeiro ano de Yale. Agora voltei a me envolver com a Fundação, como um dos novos líderes do Programa de Bolsas”, revela.

Expandindo horizontes

Essas experiências fizeram a diferença quando o estudante chegou a Yale, em 2015. Seu nível de maturidade, bastante diferente da média dos colegas, e o fato de ter entrado em contato com culturas diferentes, se somavam ao ambiente encontrado na universidade. “A primeira coisa que eu aproveitei foi a liberdade acadêmica. Pude fazer aulas de disciplinas que me interessavam, como Psicologia, Ciências Cognitivas, Estatística e Computação – e isso acabou definindo o meu diploma interdisciplinar em Psicologia e Computação”, conta.

O engajamento com atividades extra-acadêmicas já era forte: em seu primeiro semestre, já havia ingressado na Association Internationale des Étudiants en Sciences Économiques et Commerciales (Aiesec) de Yale como vice-presidente de Marketing – e, no ano seguinte, se tornou presidente da organização. “Na ocasião, intensificamos a atuação da Aiesec em termos de desempenho e crescimento, e fomos premiados. Por conta disso, fui convidado a organizar conferências na Irlanda e no Peru – o que foi uma experiência muito intensa”, afirma.

Criada em 1948 e dispondo de status consultivo no Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas (ONU), a Aiesec é uma organização sem fins lucrativos administrada por estudantes e recém-graduados de instituições de ensino superior. Sua finalidade, expressa em manifesto global, é o de “proporcionar uma plataforma global  para jovens a fim de que possam se desenvolver, se conectar com outras pessoas ao redor do mundo e ter um impacto positivo na sociedade”.

Em paralelo às atividades na Aisec, Lemos ainda participou do Brazil Club de Yale, que reúne os alunos brasileiros. “Foi organizado um programa de mentoria para alunos brasileiros interessados em se inscrever antecipadamente para Yale: estabelecemos todas as etapas, organizamos a comunidade, fizemos nosso site etc. Enfim, foi possível estruturar o Brazil Club para que se tornasse uma instituição de verdade, mais profissional.

Na luta pelo clima e pelo voluntariado

O estudante resolveu ainda se engajar no combate aos efeitos das mudanças climáticas e no incentivo ao voluntariado. No primeiro caso, foi um dos cofundadores da Students for Carbon Dividends (S4CD), um movimento político relacionado com a questão da emergência climática nos EUA. “Nos conectamos a outros grupos de alunos no país inteiro, para tentar levantar a bandeira da cobrança de um imposto do carbono. Nosso foco recaiu mais sobre um viés de políticas que poderiam ser implementadas, com o objetivo de passar uma mensagem de defesa da sustentabilidade que também faça sentido para alunos conservadores ou apoiadores do Partido Republicano”, afirma.

Já o envolvimento com a comunidade ligada à tecnologia blockchain o levou a ser o diretor-executivo da Yale Blockchain Initiative, e a organizar a primeira conferência de blockchain da universidade, que reuniu vários alunos de graduação, pós-doutorandos, professores e profissionais de Nova York.  “Ao mesmo tempo, foi aberta ali outra iniciativa, o VolunToken – cujo objetivo é centralizar as oportunidades de voluntariado na comunidade e recompensar os participantes com crypto-tokens que utilizam a tecnologia blockchain. Esses tokens podem ser trocados por descontos em pequenos negócios locais, fortalecendo assim a economia da região. “Ajuda a manter o dinheiro circulando na economia local, e é uma maneira de agradecer, incentivar as pessoas a se voluntariarem mais, a doarem seu tempo para a comunidade. Agora estamos analisando como o projeto será tocado em 2020.”

Rumo à China

Depois de tudo isso, Lemos considerou que era tempo de ir atrás de novos ares. E foi para a China, onde estudou o idioma local e iniciou a pesquisa para sua tese, baseada em mudanças culturais. “Ela é voltada principalmente para a forma como os valores de coletivismo e individualismo se relacionam no país, e como isso afeta o comportamento online das pessoas – em especial a probabilidade delas desenvolverem vícios com a tecnologia. E que tipo de conteúdo buscam em mídias sociais: de postagem ou de consumo? A internet é uma ferramenta. Como as pessoas vão decidir usá-la está relacionado a seus valores e a como percebem os valores dos outros a seu redor”, ressalta.

Adaptados os contextos culturais, a pesquisa que ele está desenvolvendo poderá ser aplicada a outros países. A escolha pela China veio do fato de que o país lideraria o mundo em termos de integração com a tecnologia. “Lá os serviços digitais são muito mais universalmente aceitos e presentes do que no Brasil, nos EUA ou na Europa Ocidental. Fazer essa pesquisa na China pode ajudar outros países a se informarem melhor sobre os possíveis riscos e efeitos negativos da interação com a tecnologia.”

O próximo passo do estudante é um curso de mestrado na China. E depois? “Ainda não sei. Talvez fique na China alguns anos, ou aplique o conhecimento obtido em outros locais. Mas, no final das contas, o Brasil é um lugar ao qual eu quero voltar; é minha cultura, o lugar onde quero criar meus filhos”, finaliza.