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Literatura brasileira para exportação

Professor de Yale vem ao Brasil discutir a proliferação das traduções de obras nacionais no exterior

Por Sérgio Siscaro

Escritores como Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis têm contribuído para disseminar a literatura produzida por brasileiros ao redor do mundo – e novas traduções de autores como Clarissa Lispector e Milton Hatoum intensificam essa presença internacional. Para falar um pouco sobre isso, o professor de Literatura Luso-Brasileira da Universidade de Yale, David Kenneth Jackson, participou em dezembro de 2019 do Encontro Internacional Conexões Itaú Cultural, promovido em São Paulo pelo Itaú Cultural. Foram realizados seis debates, uma oficina e um minicurso, voltados à questão da tradução do Brasil para o exterior, com a participação de professores dos Estados Unidos, França e República Tcheca, entre outros.

O professor Jackson tem profundo conhecimento do Brasil e de sua literatura. Ele se interessou pelo país e seu idioma na época da faculdade, fez pós-graduação na Universidade de Wisconsin e pesquisou sua tese na Universidade de São Paulo (USP) com o crítico literário Antônio Cândido, além de trabalhar com os poetas brasileiros Haroldo de Campos e Augusto de Campos. Já há 15 anos, ele e sua esposa Elizabeth Jackson, que também é professora de Yale, trazem uma turma de alunos ao Rio de Janeiro e a Parati, no programa Portuguese In Brazil Summer Program. A última edição foi concluída no final de julho do ano passado, com dez alunos.

“Vários títulos da literatura brasileira têm sido traduzidos, o que é muito positivo. Tivemos, recentemente, o sucesso de uma edição dos contos de Clarissa Lispector editada por Benjamin Moser para o inglês. O problema é que nem sempre as traduções de autores brasileiros continuam no mercado”, avalia o professor. De acordo com ele, faltaria aos autores brasileiros no exterior uma presença mais sólida na crítica literária, e nos estudos de literatura comparada. “Alguns dos fatores que dificultam isso é a ausência de uma escola, ou movimento, facilmente identificável; e a percepção de que o português é uma língua pouco falada.”

Possíveis soluções, indica, seriam a criação de coleções e antologias específicas de literatura brasileira, e o apoio de entidades como a Associação Internacional de Lusitanistas. “Meu colega Leonardo Tonus [professor Livre Docente em literatura brasileira na Sorbonne Université, na França, também presente ao Conexões] levou 30 autores brasileiros à Europa e aos Estados Unidos para apresentações em várias faculdades, o que é muito bom. Só que eles se restringem a departamentos de Português dessas instituições. A questão é atingir a área de estudos de literatura comprada e o mercado editorial, chamando a atenção para as qualidades da escrita desses autores”, pondera.

Jackson aponta que a literatura brasileira contemporânea tem várias obras que se destacam no panorama atual. “Há algum tempo promovi um seminário sobre o romance brasileiro do século XXI, e não tive problema em reunir cerca de 20 obras traduzidas. Utilizei trabalhos de Adriana Lisboa, Carol Bensimon, João Ubaldo Ribeiro e Milton Hatoum, que eu considero o melhor e mais maduro romancista brasileiro do momento. Os escritores brasileiros se abriram para o mundo, e isso é muito positivo.”