Outros

Parceria entre Universidade de Yale e Fiocruz traz tecnologia de última geração para diagnósticos

Laboratório montado no Bahia com ajuda da Fundação Bill & Melinda Gates permitirá identificar com maior rapidez e precisão agentes de doenças graves já a partir de 2020.  

Quando o surto de zika começou, em 2015, a demora dos médicos e especialistas em descobrir o que estava acontecendo evidenciou um problema maior: a falta de condições de identificar agentes causadores de doenças severas e, assim, prover os tratamentos adequados a tempo de evitar milhares, ou até milhões, de óbitos. Agora, não apenas doenças virais, como a zika, mas também infecções bacterianas poderão ser descobertas com uma precisão e agilidade muito maior, depois que estiver em funcionamento o laboratório de sequenciamento metagenômico de última geração (NGS) em Salvador, fruto de projeto de parceria entre os pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale (YSPH), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O laboratório faz parte de um trabalho conjunto entre as instituições para entender, por meio da genômica, como os surtos de doenças começam e se espalham. O projeto recebeu US$ 100 mil do Grand Challenges Explorations, premiação global para iniciativas inovadoras da Fundação Bill & Melinda Gates, dinheiro que foi usado na fase 1 da pesquisa, na montagem da estrutura do laboratório.

Nessa etapa, foram detectados cerca de 200 pacientes e colhidas amostras, divididas em três grupos de estudos (incluindo pessoas com hemorragias, doenças neurológicas como meningites e outros quadros clínicos), no Hospital Geral Roberto Santos e no Instituto Couto Maia. Depois, um time de especialistas da Fiocruz foi treinado pelos técnicos de Yale para fazer o NGS nessas amostras na Bahia.

“Esses laboratórios geralmente têm uma estrutura que custa milhões de dólares, mas conseguimos investir apenas alguns milhares na tecnologia. Mas o mais importante é dar aos profissionais da Fiocruz a capacidade de analisar os dados e fazer o sequenciamento por eles mesmos no Brasil”, afirma o professor assistente em Epidemiologia Nathan Grubauhg, que faz parte da equipe de Yale, liderada pelo professor e chefe do Departamento de Epidemiologia, Albert Ko. No Brasil, o responsável pelo projeto é o pesquisador Federico Costa, também professor da YSPH, assim como o outro membro da equipe, professor Mitermayer Reis.

Com o término do treinamento da equipe, que levou oito meses, o projeto entrará em sua fase 2, prevista para o início de 2020, quando muitas das amostras dos pacientes serão sequenciadas e a equipe poderá detectar quais patógenos estão presentes nesses casos, permitindo uma visão geral do que causa essas doenças graves. “Ao comparar os genomas de patógenos sequenciados com os bancos de dados públicos existentes, podemos determinar se está relacionado a cepas endêmicas, se foi importado ou se é um patógeno potencialmente novo”, explica Grubaugh. Assim se descobrirá o potencial de um organismo para causar surtos locais ou até ameaças globais.

A ideia é estender o trabalho para mais hospitais da região e, posteriormente, até para o Brasil inteiro. Salvador foi a cidade escolhida para o início do projeto por agrupar vários fatores de risco para a proliferação de doenças e por ter sido um dos primeiros locais afetados pelas epidemias de Zika e Chikungunya registradas. Além de ter uma região metropolitana com quase 3 milhões de habitantes e receber turistas do mundo todo, o rápido crescimento urbano, as desigualdades sociais e o clima tropical colaboram para a manifestação de uma série de doenças, como dengue e cólera.